ÉTICA NAS
NEGOCIAÇÕES COMERCIAIS
JOÃO
BAPTISTA VILHENA
DIRETOR
DO MVC INSTITUTO V. VIANNA
COSTACURTA
ESTRATÉGIA E HUMANISMO
Uma pergunta que comumente
ouço nos meus seminários e aulas são se os vendedores podem ter durante todo o
tempo - um comportamento ético nas negociações comerciais. Considero essa questão extremamente
relevante e gostaria de dividir com você, leitor, algumas reflexões.
Como sabemos, a ética é o
estudo dos costumes moralmente considerados certos e errados. Para começar nossa
reflexão, tomemos como premissas básicas três questões:
· Nós nos deparamos com dilemas
morais todos os dias. Isso é tão verdadeiro para o vendedor como para qualquer outro
profissional;
· Há
evidências de que os vendedores querem orientações de seus gerentes para ajudá-los a
lidar com problemas éticos;
· Também
é importante compreender que a maioria dos vendedores escolhe o curso de ação ético,
quando o descobre.
Embora
todo profissional esteja submetido a constantes dilemas morais, não parece haverem
dúvidas que o dia-a-dia de um
vendedor inclui várias situações nas quais é possível ser antiético:
- A necessidade de atrair a atenção e
conquistar a preferência do cliente cria a tentação de se distorcer fatos ou omitir
informações relevantes. Mentiras cabais que distorçam fatos são claramente
antiéticas, além de ilegais;
- Enfrentar uma concorrência acirrada e,
às vezes, mais desenvolvida tecnologicamente, leva alguns vendedores a exagerar nas
vantagens da sua oferta. Isso também pode ser antiético se a crença nesses exageros
resultar em prejuízo para o cliente;
- A ênfase excessiva nas vantagens do
nosso produto sobre os demais concorrentes provavelmente não é antiética, uma vez que
representa opiniões do vendedor - e os clientes esperam que o vendedor defenda sua
empresa com unhas e dentes;
- O processo de persuasão em si, embora
possa envolver manipulação, provavelmente não é antiético, uma vez que tanto o
cliente como o vendedor compreende e espera que ocorra manipulação;
- A prospecção pode ser antiética se,
deliberadamente, o vendedor tomar clientes de um colega, mas, em alguns casos, não é
antiético um vendedor levar clientes consigo ao se mudar para outra empresa;
- O uso de informações pessoais sobre um
cliente para forçá-lo a comprar é antiético;
- A apresentação de informações falsas
ou inexatas é objetivamente antiética;
- O comportamento antiético também pode
ocorrer fora do processo de vendas em si, e inclui coisas como espionar um concorrente,
sabotar os mostruários de produtos do concorrente, trabalhar em um segundo emprego no
tempo pago por outro empregador ou abusar dos benefícios de viagens e diversões.
A dificuldade em ser ético
em vendas é justamente discernir sobre o que é certo e errado. Se considerarmos estas
posições como os extremos de um continuum,
observaremos que existem diversas posições que não ficam claras não podem, a priori, serem consideradas certas ou erradas.
Uma regra de grande
validade nestes casos é posicionar-se no lugar da pessoa que estará sendo afetada por
seu ato. Quer seja um empregador, um colega, um concorrente ou um cliente, é preciso
observar a questão sob o ponto de vista do outro.
Tentemos ilustrar melhor
essa idéia através do exemplo de uma situação que quase invariavelmente -
ocorre nas negociações comerciais. Trata-se de duas alegações clássicas que são
feitas pelo vendedor:
1a. alegação: esse é o menor preço pelo qual
podemos vender esse produto;
2a. alegação: você não encontrará nada melhor
(ou mais barato) no mercado.
E duas alegações
clássicas que são feitas pelo comprador:
1a. alegação: esse preço supera nossa
percepção quanto ao valor de sua oferta;
2a. alegação: já pesquisei e encontrei outras
ofertas melhores do que a sua.
Sabemos que, na
maioria dos casos, ambos estão mentindo. E moralmente falando, a mentira é condenável.
Podemos dizer que ambos estão sendo antiéticos? Como as partes aceitam com naturalidade
que o comportamento durante as negociações comerciais se paute por uma espécie de
jogo de esconde-esconde, não há como censurar quem faz as alegações acima.
Pessoalmente penso
que a melhor estratégia para convencer um cliente a comprar nosso produto é mostrar como
o mesmo pode agregar valor a quem o compra. Outra regra básica para procuro seguir e
ensinar é que o valor das coisas não está nelas mesmas, mas sim na sua adequação a
uma determinada necessidade (pense num par de óculos, que permite que o míope enxergue,
mas que se for usado por alguém que não tenha problemas de visão vai fazer com que tudo
fique embaçado)
A reflexão final que
propomos neste artigo pode ser sintetizada na opinião de Soldow & Thomas, importantes
autores de livros sobre vendas: embora
o comportamento antiético possa levar a vendas imediatas, isso só acontece em curto
prazo. Com o tempo, pessoas que costumeiramente comporta-se de maneira antiética vêem
sua reputação sofrer as conseqüências. Por outro lado, pessoas que costumeiramente
comportam-se de acordo com os mais elevados padrões éticos vêem suas reputações
subirem. Uma reputação favorável fará mais pela criação de vendas e sucesso
duradouro do que qualquer comportamento antiético.
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