Quem tem medo de ser
Luiz Marins
O QUE A POPULAÇÃO MAIS VALORIZA ?
78% - Honestidade
77% - Verdade
72% - Confiança
72% - Respeito ao Outro
70% - Solidariedade
68% - Diálogo
66% - Empresas Éticas e Honestas
65% - Bem-estar, saúde física e mental
Será realmente verdade que o brasileiro valoriza honestidade, verdade, confiança, respeito ao outro, limpeza em todos os lugares, por exemplo?
Como antropólogo tenho sido chamado a dar uma explicação para esse fenômeno. Os valores revelados pela pesquisa não condizem com a realidade percebida por nós no cotidiano. Por quê? Estará a pesquisa errada?
Na minha opinião a pesquisa está corretíssima!
A explicação é ao mesmo tempo simples e complexa e exige um pouco de reflexão sobre o Brasil e a cultura brasileira.
É preciso que saibamos que nós, brasileiros, não temos os quatro séculos de tradição escrita de Gutenberg, o inventor da imprensa no século XV. O brasileiro eu sempre tentei explicar isso a alunos e clientes é oral e auditivo. Sem a tradição escrita que a Europa e por história de colonização, os Estados Unidos possuem, nos mantivemos tribais (no sentido de uma civilização oral e não visual). Mário de Andrade dizia que o escritor brasileiro fala com a pena na mão.
As civilizações letradas pela imprensa de Gutenberg criaram o indivíduo e o individualismo como valor. É preciso lembrar que quando as palavras são escritas elas se tornam parte do mundo visual, estático. A palavra oral é sempre dirigida ao outro. Assim, para ler eu tenho que me isolar. Para falar e ouvir, tenho que me reunir com alguém.
Assim, nas sociedades visuais, o indivíduo tem força perante o grupo. Nas sociedades orais e auditivas a força do grupo sobre o indivíduo é tão forte que podemos classificá-la, sem exagero, de quase insuperável. Assim a força do grupo sufoca os valores individuais no Brasil.
E assim, temos muita dificuldade em emitir comportamentos individuais certos.
Quem busca fazer as coisas de forma certa, correta, ética, é logo acusado de certinho ou certinha e ridicularizado pelo grupo.
Portanto, os valores individuais pesquisados são mesmo os revelados pela pesquisa. Por isso ficamos indignados com a sujeira e quando vemos um lugar limpo e bem cuidado dizemos Que coisa linda! Nem parece o Brasil!
Eu não jogo papel no lixo porque ninguém joga papel no lixo! Quando todo mundo jogar papel no lixo eu também jogarei papel no lixo. Eu não jogo porque ninguém joga e eu não quero dar uma de herói e babaca..., etc, etc.
E com esse impedimento de manifestar seus valores individuais, o brasileiro é complacente com o erro, com a desídia para não ofender o grupo. E essa complacência reforça nossos comportamentos contrários a nossos valores individuais.
O que fazer?
Minha sugestão é a de que passemos a criar, em nossas famílias, em nossas escolas, em nossas empresas, ambientes que permitam a manifestação dos nossos valores individuais.
Para isso temos que punir a impunidade. Valorizar o valor. Dar crédito aos críveis. Referendar o certo e repreender severamente o erro. É preciso dar ao brasileiro o direito de ser certo ou certa. Eis aí uma tarefa para cada um de nós pais, professores, empresários, políticos, líderes em geral.
Acredite: os valores do homem brasileiro são os revelados pela pesquisa. Nossa tarefa como indivíduos, como povo e como nação é a de permitir que eles sejam manifestos sem constrangimento.
E aí teremos o País que tanto sonhamos. E aí seremos felizes e orgulhosos do Brasil.
Pense nisso!