SE
EU FALASSE A LÍNGUA DOS ANJOS
Por Paulo Botelho
Se eu falasse a língua dos homens, se eu
falasse a língua dos anjos, sem amor, eu nada seria.
(São Paulo, Coríntios I 13:1)
O passado que atravanca o Brasil está mais
presente entre nós do que qualquer um pode imaginar. Desde a maneira de falar e escrever,
passando pela maneira de viver, até a maneira de pensar a vida e a política. O
sociólogo José de Souza Martins da USP, constata: Ainda falamos,
Sérgio Buarque de Hollanda, em Raízes do
Brasil, analisa: Diferente do que ocorre com a língua portuguesa em Portugal,
sempre dizemos as coisas pela metade: Eu vou, mas não dizemos para onde vamos
e nem quando. Essa é a linguagem do medo; de quem não pode dizer uma frase completa
porque não tem certeza.
Essa linguagem incompleta é a linguagem dos
subentendidos, da certeza de que o outro saberá o que estamos dizendo. Linguagem da
dissimulação, da vergonha e da subserviência; do faz de conta. Falando ou escrevendo
metade, dizemos o que os outros querem ouvir ou ler. Sempre deixamos um resto de frase
para completar o andamento da comunicação.
Peter Drucker, escritor e consultor americano
emérito, ensinava: O conhecimento é o único recurso econômico que faz sentido.
Com toda a razão, no que ele entendia como
Era do Conhecimento, faz com que empresas bem sucedidas recrutem, selecionem, treinem e
preservem pessoas que aprendem rápido. Para isso, é fundamental que elas se comuniquem
mais e melhor utilizando-se de linguagem objetiva, correta e concisa. Infelizmente, ainda
estamos longe disso aqui na Botocúndia!
Escrever é comunicar-se. Escrevemos para
comunicar alguma coisa a alguém. E o que significa comunicar-se? Pela própria
etimologia da palavra, significa tornar comum uma informação, uma idéia, um projeto. Se
redigimos um e-mail, um relatório, um memorando, uma carta ou qualquer tipo de texto,
queremos que outras pessoas compreendam e assimilem nossa mensagem; o que estamos querendo
dizer. E como proceder para que esse objetivo se concretize? Em primeiro
lugar, todo texto precisa ser claro e objetivo, isto é: a mensagem tem que ser facilmente
assimilada pelo leitor ou interlocutor e deve ir direto ao ponto, sem
assuntos periféricos que dificultam a compreensão.
Ao escrever, não precisamos ficar obcecados
em demonstrar erudição e cultura gramatical. Machado de Assis, nosso melhor escritor,
já comparava: Pode ser um gênio em gramática e um cretino ao escrever. Se
quisermos falar e escrever, de modo eficaz, devemos direcionar a nossa preocupação para
três funções básicas de uma correta comunicação: produzir uma resposta, tornar o
pensamento comum e convencer.
É preciso, sempre, ter boas palavras:
linguagem de amor; linguagem dos homens, de seres humanos. Elas, as palavras boas,
são para serem pensadas e salvas no disco rígido de nossa vida e memória. - Mesmo
quando queremos falar e escrever a língua dos anjos!
Paulo Augusto de Podestá Botelho é Professor
e Consultor de Empresas. Membro-Docente da SBPC Sociedade Brasileira para o
Progresso da Ciência. WWW.paulobotelho.com.br