SINAL
AMARELO: TEM UM DEMITIDO EM CASA!
Floriano Serra *
Independente de quem seja, o demitido merece uma atenção
especial. E sobretudo muito respeito. Trata-se de uma situação que deve ser administrada
com bom senso e sensibilidade pela família. Não vou falar aqui das necessárias
adaptações no orçamento doméstico par enfrentar a nova situação cada família
adotará critérios próprios para isso. Quero falar da figura humana do demitido, sob o
peso incalculável do que ele estará passando solitariamente, na maior parte das
vezes.
Em primeiro lugar, é preciso que todos entendam que, sem justa
causa, ninguém é demitido porque quer - principalmente quando se trata daquele que
contribui com a maior parte para a renda familiar - quando não seja o único provedor da
mesma. É importante a consciência deste fato porque, em alguns lares, há até a
tendência inicial de culpar o demitido, mesmo sem ter conhecimento dos detalhes que
ocasionaram o desligamento.
O profissional demitido sem justa causa sofre uma multiplicidade
de sentimentos: o de raiva, pela impotência de não poder reverter a situação
sobretudo quando tem a clara noção de que foi cometida uma injustiça; a de vergonha, de
ter que conviver com o secreto pensamento alheio de que a empresa preferiu abrir mão dele
e ficar com outros funcionários supostamente mais competentes; e o de insegurança, por
saber o quão difícil será conseguir outro emprego do mesmo nível, de forma a manter o
padrão social a que está habituado sem falar da quitação das dívidas.
Ninguém precisa apontar um dedo acusador para o demitido, que
já está com os seus próprios dez dedos apontando para si. É por isso que alguns
profissionais demitidos, no escuro silencioso do seu quarto e durante as longas horas em
que não conseguem dormir, ficam se martirizando semanas a fio por achar que, lá no
fundo, de alguma maneira, poderiam ter agido de forma a evitar a demissão: quem sabe, se tivesse sido mais político; se não
tivesse respondido ao chefe daquela forma; se não tivesse cometido aquele erro; se não
tivesse caído na provocação do colega; se tivesse se esforçado mais um
mundo de se povoa sua mente, alguns procedentes, outros nem tanto, mas de
qualquer forma todos absolutamente inúteis agora. O leite já foi derramado.
E toca a mandar currículos, às dezenas, às vezes centenas. E
toca esperar ansiosamente o telefone anunciar a esperança de um convite para participar
de algum processo seletivo. E toca participar de entrevistas, algumas que parecem
animadoras, outras que são simplesmente humilhantes. E o que é pior: ninguém chama, nem
dá qualquer retorno. E os dias se arrastam penosamente, parecendo que ganharam horas
adicionais, de tão longos que se tornam.
Resumo da ópera: a auto-estima do demitido vai para a sola dos
pés.
Numa situação emocional dessas, do que o demitido menos
precisa é de acusações, insinuações, cobranças, comparações e muito menos ironias.
Ele não é culpado, é vítima simples assim.
O mundo corporativo é complexo, possui razões e lógicas
próprias, atua através de redes internas e externas de contatos formais e informais,
decide às vezes pela necessidade, outras vezes pela conveniência, algumas vezes pela
precipitação. Disso tudo, são tomadas as decisões que podem resultar em promoções ou
Por estas razões, consumado o fato, o melhor que o demitido faz - e sua família também
é não tentar entender ou justificar o ocorrido. Aconteceu, pronto. É
irreversível. Passado o impacto inicial, o passo seguinte deve ser uma dinâmica de grupo
familiar: e agora, o que vamos fazer enquanto não
consigo novo emprego? O que acham que devo fazer? O que é possível e necessário ser
feito?
Mas isso sem mágoas, ressentimentos, nem rancores. Estes sentimentos nada agregam pelo contrário,
são poluidores, desagregadores, criam uma névoa negra na mente e no coração das
pessoas e assim impedem o raciocínio e a lucidez para a busca de alternativas
contributivas. Afinal, se foi uma crise global que gerou a demissão, a família não deve
permitir que uma crise análoga se instale no seu meio.
A condição fundamental para o bom termo de todo esse processo,
é que o demitido conte com o apoio e o carinho da família. É preciso que ele sinta que
não perdeu a admiração, o respeito e o amor daqueles que o cercam. Ele deve perceber
que todos estão dispostos a se darem as mãos e buscarem uma saída. Como se sabe, a luta
compartilhada na busca de superação de fases difíceis, tende a unir e a fortalecer os
laços familiares ainda que o processo seja lento e dolorido.
Ninguém pode fugir das dificuldades, mas pode administrá-las e
vencê-las. As possibilidades de o demitido dar a volta por cima, são diretamente
proporcionais à sua crença nessa premissa e a família pode ser de grande valia
nisso.
* Floriano Serra é psicólogo, consultor e
palestrante, presidente da SOMMA4 Consultoria em
Projetos de RH e do IPAT - Instituto
Paulista de Análise Transacional. Foi Diretor de Recursos Humanos de empresas nacionais e
multinacionais.