POR QUEM OS SINOS DOBRAM NAS
EMPRESAS
Floriano Serra
A desenfreada luta pela sobrevivência econômica, social e emocional tem feito muita
gente exagerar na preocupação consigo mesma e esquecer de quem está ao lado seja
colega, vizinho, amigo ou parente. É claro que, como ensina a Psicologia, precisamos ter
auto-estima e amor próprio como condição para termos uma saudável e harmoniosa
convivência com as outras pessoas. Mas há um limite além do qual a
auto-supervalorização passa a ser narcisismo ou egoísmo - e então ficamos a um pequeno
passo da invasão dos direitos alheios.
Alem do mais, ninguém vai muito longe sozinho. Precisamos da convivência comunitária,
precisamos de companhias, precisamos de amigos, precisamos de colegas.
Pessoas continuam sofrendo em todas as partes do globo inclusive nas
empresas. É impressionante a quantidade de sofredores anônimos nas
empresas. São aqueles colegas que, às vezes, até adquirem a fama de
travados, caladões, esquisitos, emburrados... e
que, na verdade, estão emitindo um mudo pedido de socorro. Em muitos deles, o silêncio
é mais eloqüente que um grito. Só que eles não têm estrutura, condições ou coragem
para abrir o coração de forma explícita, devido ao medo de serem vistos
como fracos, problemáticos ou até incompetentes.
Problemas pessoais devem ficar em casa!
- ainda há gestores no mercado que acreditam nisso e praticam essa ultrapassada
premissa. A esses gestores deveria ser perguntado em que parte do corpo fica o botão que
liga e desliga os sentimentos e emoções das pessoas. Claro que empresa não é casa de
beneficência nem é de se esperar que as reuniões de trabalho se transformem em muro de
lamentações ou terapia de grupo. Refiro-me á ação cooperativa, espontânea e freqüente
dos colegas entre si, pela prática da empatia, da solidariedade, da sensibilidade, da
afetividade.
O que acontece em toda a empresa ou no mundo inteiro
diz respeito a cada um de nós porque, de alguma forma, nos afeta. Metaforicamente, a Teoria do Caos diz que
uma borboleta
batendo asas na Amazônia pode provocar um furacão no Texas. Isso pretende
reforçar que o mundo está conectado e todos seus habitantes interagem, independente das
distâncias.
Se não podemos ajudar diretamente aos milhões de desempregados, famintos, abandonados e
carentes do mundo inteiro, podemos fazer a nossa parte dentro
do pequeno universo em que vivemos diariamente: a família, o bairro, a comunidade, o
local de trabalho. E não adianta pensar que eu não tenho nada com isso ou
cada um que cuide de si. Este é o infrutífero egoísmo a que nos
referimos no inicio deste artigo.
A maioria dos profissionais vive a maior parte do seu tempo no local de trabalho, muito
mais do que com sua família. Diante disso, o mínimo que cada um pode fazer é contribuir
para que esse local de trabalho, sem prejuízo do profissionalismo, seja gratificante,
agradável, harmonioso - e para isso é fundamental a convivência pacifica e produtiva
com os colegas, inclusive com as chefias.
Saiba que,
de alguma forma, o problema do porteiro, da moça que serve o café, do vendedor, do
mecânico, do presidente, da secretária, de quem quer que seja numa empresa tem a ver com você e certamente você poderá
fazer alguma coisa para ajudar, desde que queira e que saiba observar e aproveitar as
oportunidades para ajudar. Que os profissionais do mercado procurem lembrar sempre do
bater de asas da borboleta na Amazônia. E se isso não bastar, que lembrem também do que
disse o poeta John Donne: Nenhum Homem é uma ilha, isolado em si próprio. A
morte de qualquer pessoa me diminui porque estou envolvido com a Humanidade. Portanto,
nunca perguntes por quem os sinos dobram: eles também dobram por ti.
Qualquer que seja a empresa onde você esteja,
certamente no seu local de trabalho, há sinos tocando pertinho de você. Só não os ouve
quem não quiser, porque não existem corações surdos.
* Floriano Serra é psicólogo, diretor de RH
e Qualidade de Vida da APSEN
Farmacêutica, eleita pelo 4o. ano consecutivo "uma das Melhores Empresas para Trabalhar
no Brasil Este ano está entre as 10 primeiras e é a 31ª. da
América Latina (GPTW).