Floriano
Serra*
Tenho observado que, atualmente, tem sido comum
ouvirmos de vencedores de qualquer natureza mas, sobretudo, no campo esportivo - um
agradecimento a Deus pela vitória, quase sempre entre lágrimas de felicidade.
O que isso tem a ver num artigo voltado ao
contexto corporativo? Tem muito a ver, por causa de duas palavras ou duas posturas: emoção e
fé.
Na maior parte das empresas, a cultura ainda
privilegia e estimula o pensamento linear, as atitudes lógicas e analíticas, em
prejuízo do que nelas for considerado subjetivo,
como a emoção e fé. Nessas empresas, só vale o concreto, o material, o quantificável.
Ora, uma empresa é, ela própria,
uma entidade subjetiva. O que de fato existe é um conjunto de profissionais qualificados
que produzem e vendem um determinado bem, produto ou serviço, para obter determinados
resultados que gerem lucros e assim garantam a liderança ou a sobrevivência da
organização.
Mas um detalhe que geralmente é esquecido,
é que, ao falarmos de empresa, estamos
falando fundamentalmente de pessoas - e aqui
está o x da questão. O mundo inteiro está em processo de mudanças
aceleradas e deixando as pessoas em geral e os profissionais em particular, emocionalmente
instáveis e inseguros. Isso tem feito com que até mesmo o próprio sentido da vida já
esteja sendo questionado por eles: afinal, para que trabalho, para que faço tudo isso? a
troco de que?
Espero que ninguém tenha se sentido tentado
a responder: a troco de salário! Esta seria uma visão ultrapassada e
simplista dos fatores que impulsionam o Homem para frente e para o alto, que o entusiasmam
a dar de si muito mais do que aquilo para o qual é pago. O profissional de hoje tem a
consciência de que, além de tarefas e responsabilidades, precisa ter uma missão. Certamente essa missão não constará da
descrição do seu cargo, mas será inerente a
ele. Há que haver um sentido de utilidade, de importância, de realização naquilo que a
pessoa faz ainda que seja remunerada por isso.
O mais alto e poderoso empresário ou profissional de qualquer parte do mundo é,
antes de tudo, um ser humano. Não precisamos pesquisar muito para saber que muitos deles
estão sofrendo por problemas de natureza afetiva ou emocional. Mas estão num beco sem
saída: quando esse problema será trabalhado se o contexto organizacional vê isso como
fragilidade ou sem importância? Como administrar o vazio que o poder às vezes pode
trazer se nada houver além de prosaicas e cotidianas tarefas, decisões e transações
comerciais?
Uma coisa é certa: nenhum risco corre a
organização que se preocupa e investe no bem-estar emocional e na espiritualidade dos
seus colaboradores. Isso pode ser feito sem que, necessariamente, tenha que se instituir
grupos de terapia ou transformar a empresa numa entidade protecionista, religiosa ou
assistencial. Toda empresa é e vai continuar sendo uma entidade com fins lucrativos. Mas
as tendências atuais indicam claramente que o caminho mais fácil e rápido para atingir
esse lucro é através de uma relação integrada entre a empresa e os profissionais
responsáveis pela obtenção desses resultados. Sentindo-se bem e feliz com aquilo que
faz , onde faz e da maneira que faz, todo profissional, independente da sua posição na
escala hierárquica, dará sua contribuição à empresa, através de um alto nível de
lealdade, dedicação e comprometimento. Não há, portanto, que se temer trabalhar com
coisas subjetivas numa empresa.
As questões da emoção e da fé estão ligadas a todo esse contexto. O indivíduo
que não consegue ter fé qualquer que seja sua concepção de Deus muito
provavelmente também não a terá para uma missão profissional. Será uma mera máquina
de ganhar ou fazer dinheiro. E isso é muito pouco, medíocre até, ante a infinita
maravilha do potencial humano. E se ele nega suas emoções ao temer ou reprimir suas
manifestações, estará renegando sua condição humana para identificar-se, cada vez
mais, com as máquinas.
As atuais expressões de emoção e fé dos
vencedores, às quais me referi no inicio deste artigo, deveriam encorajar muitos
profissionais a refletir sobre o assunto. Afinal, essas manifestações não partem de
irresponsáveis ou imaturos, mas de campeões, vencedores
na sua modalidade de negócio. Pessoas que, se fossem convencionais, teriam tudo para
ostentar superioridade, vaidade e arrogância. Mas que, no entanto, assumem e demonstram
publicamente suas limitações e, humildemente, atribuem a Deus, com o dedo apontado para
o alto, as forças decisivas que os levaram à vitória.
Essas são principalmente lições de humildade
ingrediente que talvez falte a muitos profissionais que equivocadamente se julgam
vencedores.
A sorte deles é que Deus é muito paciente e
sabe que há uma hora certa para cair a ficha de certas pessoas. Para alguns,
essa ficha cai cedo e isso é ótimo. Para outros, isso
demora tanto que, quando acontece já está na hora do Grande Encontro.
Um pouquinho tarde, não?
* Floriano Serra é
psicólogo, diretor de RH e Qualidade de Vida da APSEN Farmacêutica, eleita pelo
4o. ano consecutivo "uma das Melhores Empresas para Trabalhar no
Brasil" (Revistas EXAME- VOCÊ SA/FIA e ÉPOCA/GREAT PLACE TO WORK). Está entre as
10 primeiras do Brasil e é 31a. da América Latina (GPTW).