O
SÉTIMO SENTIDO NA SELEÇÃO DE PESSOAS
Floriano Serra *
Atualmente, as empresas estão diante de um interessante desafio
no que se refere aos seus processos de seleção de pessoal. Isso porque o mercado, cada
vez mais, percebe que a grande maioria das demissões que vêm acontecendo, em todos os
níveis hierárquicos, têm suas origens em problemas comportamentais.
Muitos profissionais competentes, donos de invejáveis
currículos que incluem MBAs, mestrados e doutorados alguns até no Exterior vêem suas carreiras interrompidas na
organização porque as desavenças internas com a chefia, pares, colegas e até com
fornecedores e clientes, chegam ao ponto de comprometer o clima e a produtividade e, em
alguns casos, até a imagem institucional da empresa.
Por essa razão, existe agora uma enorme preocupação das
organizações em selecionar profissionais que, ao lado de uma necessária competência
técnica e uma sólida formação acadêmica, possuam a indispensável habilidade de
interagir harmoniosa e produtivamente com os demais, em favor dos resultados esperados. Em
algumas empresas dentre as quais onde eu trabalho este aspecto é até
prioritário sobre as competências técnicas.
No entanto, em grande parte das empresas, os profissionais de
seleção de pessoal são levados a garimpar e contratar talentos, sem a
recomendação ou preocupação de aferir aqueles aspectos comportamentais para saber se
esses profissionais talentosos saberão compartilhar pacificamente seus conhecimentos e
experiências com a equipe. Nos processos
seletivos que têm esse enfoque, o currículo, os diplomas e o domínio de idiomas falam
mais alto que a essência humana e, como conseqüência, os
conflitos não tardam a aparecer.
Medir conhecimento
técnico é relativamente fácil: entrevistas com especialistas, provas situacionais,
histórico acadêmico e profissional, referências, resultados numéricos obtidos,
monografias e estudos realizados, são alguns dos instrumentos que possibilitam essa
aferição. A questão é: como medir
ou avaliar a essência humana?
Talvez nesta década a resposta ainda possa surpreender, mas
acredito que, para avaliar condições subjetivas, é necessário usar recursos, técnicas
e métodos também subjetivos. Estou falando de coisas como intuição,
percepção, feeling, sacação, leitura corporal
esse conjunto de recursos mágicos que talvez constituam um Sétimo Sentido e que compõem aquilo que chamo
de seleção
intuitiva.
Acredito que os leitores ficarão divididos diante dessa
resposta: alguns torcerão o nariz, darão um muxoxo, um sorriso irônico e
concluirão que não vale a pena levar isso a sério. Estes, certamente serão
profissionais que atuam em empresas cuja gestão baseia-se exclusivamente no que é
rigorosamente racional, concreto, objetivo e mensurável. Estas são, claro, condições
importantes na dinâmica corporativa, mas não são as únicas. Por isso mesmo, outros
leitores, ao contrário, acharão que esta se trata de uma proposta atraente, criativa,
inovadora embora ousada, diferente, polêmica e muito pouco ortodoxa.
As corporações são feitas DE, POR,
e PARA
pessoas. Logo, temos todos que admitir a hipótese de trabalharmos com aspectos, recursos
e condições essencialmente humanas na sua totalidade em relação aos quais a
tecnologia, por mais avançada que seja, nem sempre poderá entender muito menos ajudar.
Ou alguém conhece uma máquina criativa? Ou sensível? Ou intuitiva? Estas são exclusividades humanas.
Conforme divulga The
Economist, no começo deste ano os psicólogos Nalini Ambady e Nicholas Rule, da
Tufts University, fizeram uma pesquisa para
demonstrar que até mesmo uma fotografia pode transmitir muitas informações sobre a
competência de um profissional. Eles mostraram a 100 universitários os rostos dos executivos das 25 primeiras e das 25 últimas
empresas listadas nas 1.000 da Fortune. O desafio era que os estudantes (que não conheciam
os executivos), identificassem, apenas através das fotografias, quais os melhores líderes. E, ainda: que
avaliassem estes cinco traços da personalidade do profissional retratado: competência,
dominância, carisma, maturidade e confiabilidade. Os resultados foram surpreendentes.
Impossível? Não, apenas diferente daquilo que nos foi ensinado academicamente ao longo
do tempo.
Há risco de erros nesse Processo Intuitivo de Seleção de Pessoas?
Claro que sim, tanto quanto nos processos objetivos e científicos. No entanto, se, numa
entrevista, queremos conhecer a essência humana,
temos que usar o instrumento adequado para ver, sentir e
perceber essa essência, que, certamente, transcende aos métodos convencionais de
avaliação. E daí? Lembremos que os métodos seletivos convencionais não vêm
apresentando resultados satisfatórios conforme demonstra o elevado percentual de
demissões por motivos comportamentais.
Se o profissional de Seleção possuir boa percepção ou
intuição - ou se estiver disposto a desenvolvê-la, não custa tentar, desde que
acredite em si e na possibilidade de conseguir. Não há nada de errado com o uso da
percepção e da intuição. Tenho certeza de que já aconteceu com o leitor simpatizar ou
antipatizar de imediato com alguém a quem acabou de ser apresentado. E sem causas
aparentes a não ser a fácil e cômoda explicação de que houve uma
associação inconsciente com alguma outra pessoa desagradável conhecida no passado. Pode
ser. Mas também pode não ser. Neste caso,
qual a explicação?
Enfim, a proposta deste artigo não é convencional nem linear
nem pretendia sê-lo. A intenção
aqui é provocar a reflexão e, se possível, a experimentação. Com coragem, ousadia e
total ausência de preconceitos.
Nestes tempos em que as empresas falam tanto de inovar, por que
não fazê-lo também na relação com esse misterioso e profundo universo do
comportamento humano?
* Floriano Serra é psicólogo, diretor de
RH e Qualidade de Vida da APSEN
Farmacêutica, eleita pelo 4o. ano consecutivo "uma das Melhores
Empresas para Trabalhar no Brasil" (Revistas EXAME- VOCÊ SA FIA e ÉPOCA/Great Place
to Work). Este ano está entre as 10 primeiras.
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