VAI TRABALHAR? DIVIRTA-SE!
Floriano Serra*
Nada mais chato na vida do que se ter um trabalho chato, cercado
de pessoas chatas e principalmente ser liderado
por um chefe chato ! Isso pode até matar, sabia? No ano passado uma pesquisa realizada
por especialistas ingleses do College of London
descobriu que um contexto de trabalho nessas circunstâncias, pode provocar ataque
cardíaco!
Em termos de gestão de pessoas, são muitos os fatores que
podem produzir a chatice no trabalho e eu não teria aqui espaço suficiente para falar de
todos eles num só artigo. Vou dedicar-me a um só ponto, justamente o mais importante e
decisivo para o clima interno: a chefia.
Neste sentido, a chatice no trabalho começa quase sempre devido
à tão inabalável quanto despropositada crença que alguns chefes possuem e
manifestam a respeito do seu chamado poder. E, por causa dele, mostram-se
diariamente grosseiros, autoritários, centralizadores e exibidores de outros predicados
muito pouco relacionados com as modernas teorias sobre liderança, motivação,
produtividade e condução de pessoas. Olhando apenas para o próprio umbigo, esses
donos da verdade e das vontades arvoram-se em privilegiada autoridade à qual
toda a equipe deve se submeter, sem contestações. Resultado
disso? Pessoal desmotivado, aumento dos processos trabalhistas com a alegação de
assédio moral. elevado absenteísmo e altíssimo turn-over. Ao mesmo tempo, horários são rigidamente
controlados desde o da pausa para o cafezinho ao da ida ao banheiro, onde aqueles
gestores acreditam que há um tempo médio e máximo de permanência...Ou
seja, os colaboradores que estiverem com desarranjo intestinal poderão adicionalmente ter
também problemas disciplinares por ultrapassarem o tempo de tolerância permitido no
toalete. E os gritos, acompanhados de perdigotos? E as cobranças e olhares ameaçadores?
E a falta de atenção, de bom dia, boa tarde, como foi seu fim de semana, obrigado,
com licença, por favor, parabéns?
Eu fico me perguntando se essas pessoas já ouviram falar em
qualidade de vida e se já, o que pensam dela. Pergunto-me
que prioridades essas pessoas dão às suas vidas - trabalho, família, amores, sonhos,
diversão, saúde,..Certamente todo resultado que atingimos na vida nos cobra um preço. A
questão é avaliar sempre: vale a pena? Por este resultado que vou obter, compensa pagar
esse preço? Compensa ultrapassar as metas e conviver com uma equipe ressentida,
desmotivada, emocionalmente doente e que não vê a hora de trocar de barco na primeira
oportunidade? E na vida pessoal? Que preço essas pessoas estão pagando nas suas
relações pessoais e familiares em troca de um polpudo saldo em conta corrente ou na
aplicação?
Tenho sempre repetido que não é de bom senso permitir que
nossa felicidade dependa de fatores sobre os quais não temos nenhum poder de decisão.
Dê o melhor de si no seu trabalho, com ética e profissionalismo mas não perca de
vista que ele não é tudo na sua vida. Ao encerrar o expediente, deve haver um outro
mundo à sua espera: familia, bons amigos, boas diversões, afetividade, arte, cultura,
passeios.
Se você conseguir fazer
com que as perspectivas dessa segunda etapa do dia (após o expediente de trabalho) sejam
altamente compensadoras, você, durante o trabalho, estará sempre com um sorriso nos
lábios, antecipando os prazeres que terá depois de uma inevitável, mas desnecessária e
absurda jornada de chatice. Você até descobrirá que há gente e coisas boas no seu
ambiente de trabalho, até então imperceptíveis.
No mínimo, tente - não seja chato.
* Floriano
Serra é
psicólogo, diretor de RH e Qualidade de Vida da APSEN
Farmacêutica, eleita pelo 4o. ano
consecutivo "uma das Melhores Empresas para Trabalhar no Brasil" (Revistas
EXAME- VOCÊ SA FIA e ÉPOCA/Great Place to Work). Está entre as 10 primeiras no ano de
2008.
Contato
com o autor.
Fonte: ABRH-Nacional/O Estado de S.
Paulo (2006)