O DIAGNÓSTICO JÁ CONTRIBUI PARA A CURA?
DENIZE DUTRA
CONSULTORA DO INSTITUTO MVC
O objetivo deste artigo é compartilhar uma experiência
recente e bastante enriquecedora que vivi quando estava coordenando um trabalho de
diagnóstico para um cliente, que a partir do presente passará a se chamar empresa ALFA.
A ALFA teve, em meados do ano passado, uma grande mudança em sua alta administração,
com a saída de um "superintendente" que, embora não queiramos aqui avaliá-lo
nem em termos de competência, resultados ou meios
., deixou forte marcas no clima da
organização, devido à implantação de uma fase de "caça às bruxas". A
empresa, que sempre teve uma cultura muito conservadora, passou então por período de
grande turbilhão.
A atual direção da empresa, após fazer um planejamento estratégico, em que deixou
claramente definidos seus valores, teve consciência de que, muito provavelmente,
não conseguiria atingir alguns de seus objetivos e, principalmente, expressar em suas
ações e decisões os valores assumidos, se não houvesse uma mudança nos estilos de
liderança predominantes na organização, devido não só ao perfil dos atuais líderes,
como por influência da cultura organizacional vigente até então. Estava claro onde era
preciso chegar, mas não estava claro qual seria a trajetória, pois não sabiam
identificar de onde estariam partindo.
Apresentar um programa de DESENVOLVIMENTO DE LIDERANÇAS, como foi o pedido inicial do
cliente, sem conhecer a realidade atual, seria um erro, que mais à frente poderia não
ter a chance de ser corrigido. Com o compromisso e apoio de toda a alta administração,
decidimos fazer um diagnóstico do clima organizacional e do estilo de liderança
predominante hoje na empresa. Sabíamos que a visão deste grupo, mesmo "certa",
poderia ser parcial e, com certeza, a visão dos demais níveis hierárquicos e de toda a
organização poderia ser muito enriquecida ou até mesmo ser muito diferente daquela já
conhecida.
Conceitualmente utilizamos o modelo da JANELA DE JOHARI, já conhecido desde os anos 60,
para compreender melhor a importância deste feedback, pois, assim como as pessoas
individualmente, as organizações também possuem a sua área CEGA, tanto em relação
aos clientes externos (no que diz respeito à qualidade percebida de seus
produtos/serviços), como especialmente em relação aos clientes internos, cuja visão de
alguns aspectos do clima da empresa e dos estilos de suas lideranças poderia ser
diferente da percepção que a Direção tinha a respeito de si própria e da
organização.
O objetivo do diagnóstico, além de conhecer aspectos do clima da organização na
perspectiva dos colaboradores e do estilo de liderança predominante, era também
identificar os pontos de melhoria que fundamentassem a elaboração de um programa de
desenvolvimento de competências para as lideranças que atendesse às atuais necessidades
da organização e ficasse totalmente coerente com o planejamento estratégico, de tal
forma que outras ações identificadas como necessárias pudessem ser implementadas para
consolidar um estilo de gestão desejado.
Até então, tudo parecia muito lógico e nada de novo, mas não decidimos por uma
metodologia convencional de diagnóstico, através da aplicação de questionários, sem
identificação com toda ou parte da população-alvo, estatísticas etc. Optamos,
corajosamente, por inovar, sair da mesmice, ousar
e tomamos o seguinte caminho:
Concluído o processo de diagnóstico e de sua consolidação junto à alta administração, partimos para dois processos paralelos:
O mais interessante deste trabalho foi, de fato, o
processo. Ficou claramente percebido que a metodologia utilizada transformou um "
mero diagnóstico" num importante instrumento de mudança cultural, pois
tivemos de mexer nos sentimentos, expectativas e "padrões de conduta" das
pessoas dentro da organização. Através de forte trabalho de sensibilização,
conquistamos a confiança das pessoas e a credibilidade nesta atual administração.
Provocamos o reconhecimento de sentimentos de medo, insegurança e também o de
valorização pessoal e de respeito. Conseguimos fazer com que uns se expusessem ao
extremo e que outros, de forma mais contemporizada, não fugissem da verdade e talvez
até, em alguns casos, de que "pecassem pelo excesso" da crítica, por terem
"guardado por tanto tempo este grito de alerta".
Seria florear a realidade dizermos que o processo foi perfeito, isento etc. Certamente
não foi, como todo processo desta natureza esteve sujeito à subjetividade da mente
humana, apesar de nossas tentativas de minimizar estes efeitos, utilizando instrumentos de
medida quantitativa, além das análises qualitativas. Outros aspectos poderão, sem
dúvida, ser aprimorados para uma futura utilização desta metodologia.
O mais importante e que não podemos deixar de reconhecer é que, apesar de doloroso para
todos os diretamente envolvidos, pois tiveram de se confrontar com uma situação mais
crítica do que imaginavam, esta foi uma experiência extremamente enriquecedora também
para a consultora e os diretores no que diz respeito ao crescimento pessoal e
profissional, bem como para toda a organização, pois já se percebia durante o processo
de diagnóstico e agora, uma melhoria no nível de motivação, no relacionamento entre as
áreas e, principalmente, na conquista da credibilidade no "futuro da
organização", que é a base para o comprometimento das pessoas, juntamente com uma
visão compartilhada do planejamento estratégico.
Apesar de não ter sido possível contar muitos detalhes do processo, confesso que ficaria
sem sentido ter decido compartilhar esta experiência se não reconhecesse para vocês que
esta foi uma das situações mais desafiadoras desses últimos tempos (e não têm sido
poucos os desafios) de minha vida como consultora. Talvez porque já conhecesse a empresa
anteriormente e sabia que seria muito difícil obter o comprometimento das pessoas com
este diagnóstico ou porque sempre pensamos que diante do novo as pessoas vão resistir, e
isto poderia comprometer os resultados do trabalho ou talvez, ao contrário, seja porque
eu ainda acredite tanto no SER HUMANO, na sua
capacidade de MUDAR, de se ADAPTAR,
perceber seus SENTIMENTOS e entender seus MEDOS, que eu tenha conseguido "mobilizar" as pessoas
a realizarem uma tarefa que só poderia ser feita por NÓS.
Talvez possa parecer deselegante ou injusto, em relação ao empenho que todos tiveram com
o sucesso do trabalho, ressaltar duas pessoas em especial neste processo: uma delas, pela
sua capacidade de dar e receber críticas, de forma tão adequada e pela sua capacidade de
articulação, pela sua transparência, bom humor e visão tão positiva do futuro. A
outra, pela sua humildade ( humus = terra fértil), ou seja, a sua capacidade, de
aceitar as críticas e "fertilizá-las" dentro de si, por ser tão direta, tão
questionadora, tão inquieta, na constante busca de melhoria para a empresa, e hoje
mostrando que também na melhoria de si mesma
Estas pessoas, as quais admiro como
Gente e como profissionais, me proporcionaram alguns momentos de profundo aprendizado e de
emoções
conviver com pessoas assim, fortalece, inspira
.renova.
Quando percebemos que as pessoas saíram ganhando com todo este processo, vale acreditar
que a organização terá isto refletido em seus resultados !!!
OBS.: Material retirado dos Programas Executivo Século
XXI e Diferenciais Competitivos para Gerentes.
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