Aceitação e mudança
Gustavo Boog
Desde
o lançamento do meu livro Faça a Diferença!, tenho apresentado e discutido
com centenas de pessoas o conceito de poder pessoal, que é a afirmação do eu posso. Poder pessoal é ter nas
mãos as rédeas da própria vida. É ter auto-estima elevada. É estar harmonizado e em
equilíbrio. É sair do papel de vítima. É aceitar as coisas como elas são.
E é
nesta última parte, o aceitar as coisas como elas são, que as pessoas geralmente
discordam energicamente do conceito. Como posso ter poder pessoal e aceitar as
coisas como elas são?, Aceitar não significa ficar parado e passivo?
são as perguntas mais comuns. Aceitar é confundido com passividade, com paralisia, com
falta de interesse ou com falta de ação; o conceito na realidade é exatamente o
inverso, pois quando eu aceito as coisas como elas são, eu resgato minha força e poder
de transformar.
Aceitar
não quer dizer que eu possa fazer as coisas voltarem a ser como eram. Aceitar não
significa estar feliz e contente com os acontecimentos. Aceitar não é aprovar o
ocorrido. Mas aceitar significa ficar aberto às mudanças, a rever referenciais e formas
de perceber e agir. Quando isto ocorre saímos do papel de vítimas das circunstâncias,
para podermos realizar com disposição as
mudanças que precisam ocorrer.
Quando
não aceito integralmente, com a mente e o coração, estou tentando, muitas vezes em
desespero, restaurar o padrão ou situação anteriores, que talvez eram cômodos e
confortáveis. Aceitar significa abrir-se à mudança.
Estou
lendo com muito entusiasmo o livro Um dia minha alma se abriu por inteiro, de
Iyanla Vanzant, da Editora Sextante. Neste livro é feita uma citação de James Baldwin,
que diz você não consegue consertar o
que não consegue encarar. Esta é uma grande e fundamental verdade: como
consultor tenho visto tantas empresas investirem muito dinheiro em programas que não
levam a nada, pois seus dirigentes não conseguem encarar a realidade de suas
organizações e detectar as verdadeiras causas de suas dificuldades. Como terapeuta em
processos de counseling fico muitas vezes estimulando o cliente a não ficar
rodeando os temas centrais, não querendo ou podendo encarar de frente as
causas de sua indecisão, irritação ou depressão.
O
encarar e aceitar a dificuldade que estamos vivenciando é o primeiro e decisivo passo
para tomar as decisões certas para as mudanças. Num tempo como o nosso, de rápidas e
profundas mudanças, deixar de aceitar a realidade é abdicar do direito de fazer escolhas
conscientes. Aceitar uma realidade é como ingressar num rito de passagem: deixar o velho
e ingressar no novo. A aceitação é um aviso que nos diz que agora é preciso mostrar
fibra e coragem. É um presente que nos convida a agir.
Cynthia Kemp Scherer tem afirmado tantas vezes everything is perfect (tudo está perfeito). Eu levei muito tempo para entender que a perfeição não significa obra acabada, mas antes que a sabedoria de todos os momentos, que são perfeitos, significa que a pessoa está passando pela experiência que tem que passar e que o Universo a presenteia com a oportunidade de decidir o que tem que ser decidido e agir, realizando as ações que necessitam ser tomadas. Tudo está perfeito significa você aceitar totalmente a experiência que está passando e agir em cima disto, mobilizando as ações que precisam ser tomadas. Aceitar a realidade como ela é significa olhar para o futuro, para as transformações que precisam ser concretizadas. Só assim as pessoas, equipes e organizações se desenvolvem; a não aceitação significa ficar patinando na busca de soluções que no máximo irão resolver momentaneamente os efeitos, mas não solucionar as causas.