A Volatilidade do Novo Paradigma Humano
Conclusões da Conferência de RH em Buenos Aires
Marco Aurélio Ferreira Vianna
Presidente do INSTITUTO MVC
17/07/2001
Não há dúvida de que se encontra em momento de sólida formação o paradigma da
ascensão da importância do "lado humano da gestão" (human side of
management).
Evidências por todas as partes demonstram que pessoas deixam de ser consideradas recursos ou, em conotação mais crítica, custos variáveis, e passam a ser elevadas ao patamar mais nobre de prioridades estratégicas. Algumas afirmações advindas de presidentes e CEO's dão aval a esta tendência: "homens e mulheres não são recursos humanos das organizações; ao contrário, as organizações são recursos dos Seres Humanos."
Dave Ulrich, um dos mais renomados
consultores no campo de Recursos Humanos afirma que RH agora está na mesa da direção
estratégica das empresas. Parece que começa a se dissipar a dúvida de que gente
motivada aumenta a rentabilidade das organizações.
Em estudos que realizamos no Instituto MVC, concluímos que há uma clara evidência de
que as empresas mais admiradas selecionadas pela revista Exame em suas edições Melhores
Empresas Para se Trabalhar, têm efetivamente uma rentabilidade melhor do que a média
do setor em que atuam. Huselia / Becker, em importante estudo que realizaram na Sears em
1998, demonstraram que o engajamento em boas práticas de RH acarreta conseqüências
positivas nos resultados de vendas, com evidente impacto na sua rentabilidade. A empresa
Franklin R&D Inc. também obteve a conclusão de que as cem melhores empresas para se
trabalhar da Revista Fortune foram duas vezes mais rentáveis do que a média das
quinhentas empresas do índice S&P. A própria Bolsa de Nova York fez um completo
estudo demonstrando que 75% das empresas pesquisadas melhoraram seus resultados com
programas de RH. Enfim, saímos da discussão dialética e podemos concluir que pelo
menos há uma boa probabilidade de aumentar o lucro com a ação da melhoria humana.
Um argumento que certamente homens e mulheres de RH ainda necessitam para convencer seus
presidentes, diretores e conselheiros a abrir seus bolsos e seus orçamentos para área
humana.
Segurando talentos
Neste sentido, os humanistas têm
motivos de sobra para comemorar com rejúbilo multiplicador a transformação do
capitalismo selvagem e até predatório em uma filosofia empresarial com mais
responsabilidade social. Entretanto, esta alegria não pode, de modo algum, gerar um
comportamento de acomodação. "O preço da liberdade é a eterna vigilância"
deverá ser lema de uma guerra que continua.
A ascensão do humano e seu coordenador maior nas empresas não significa que
necessariamente estaremos assistindo a uma humanização das organizações. Há
necessidade absoluta de se acompanhar pari-passu a essência de formação deste
novo paradigma. Muita gente importante, de pensadores a consultores, de professores a
executivos, está defendendo uma numerização exagerada das novas práticas do
novo RH ou, se quiserem, da prática de um novo RH. Em alguns extremos, já se afirma que
a empresa não deve se preocupar com a felicidade de seu empregado, mas sim com seu
sucesso, com seu desempenho, com sua performance, com suas competências. Em meu ponto de
vista, sinto o enorme risco de se aplicar a este novo RH um modelo
contábil-financeiro-econômico, bem no estilo mecanicista/reducionista , em que
simplesmente seres humanos continuarão a ser recursos, agora administrados e controlados
com práticas e processos muito melhores e mais efetivos.
Não há dúvidas de que RH deve ser um centro de lucros, não há dúvida de que uma
Universidade Corporativa deve ter seus resultados mensurados de uma forma extremamente
eficaz. No entanto, isto não significa que se repitam erros do passado e só o lucro seja
importante. Se prevalecerem princípios tão somente matemáticos, haverá sérias
conseqüências negativas para ambos os lados: para o capital e para o trabalho, para o
empregador e para o empregado.
Eu não tenho medo de afirmar que uma empresa com excelentes práticas e processos de RH
não será o único leitmotif nem mesmo a principal razão de atração e
retenção de talentos. Talentos serão atraídos em termos mais permanentes pelo ambiente
humano de uma organização, em um sentido mais global: clima, respeito, valorização,
integração, liberdade, autonomia, perspectiva de desenvolvimento, desafio. Coisas
humanas e não simplesmente matemáticas.
Sempre é bom lembrar que nos próximos anos o pêndulo histórico vai mudar e de maneira
radical. De tanto se alardear o "fim do emprego", os jovens acabarão
aprendendo. Como natural reação, as novas gerações X e Y vão buscar a construção de
suas competências como empreendedores. E então, ao contrário do que se imagina hoje, as
empresas terão uma absoluta escassez de pessoal qualificado. Aliás, eu não sei se, na
cabeça do jovem do futuro, será pouco nobre pertencer a uma organização na condição
de empregado. O "quente", o "legal" ou a gíria que seja criada na
época será tocar seu próprio negócio. A Era do Conhecimento e o mundo eletrônico são
combustíveis de alta potência para impulsionar esta tendência. Por tudo isto, vale a
pena gastar algum tempo em reflexões sobre o futuro de RH.
Instituto MVC