SEMPRE NEGOCIE PARA GANHAR
J.A.WANDERLEY
Todo negociador sempre deve negociar para ganhar, mas há duas formas de ganhar. A
primeira, às custas da outra parte. A segunda, consiste em chegar a um acordo em que os
interesses relevantes das partes sejam atendidos. Quem procura ganhar às custas do outro,
costuma seguir o lema de Ashleigh Brilliant:
"Eu sempre ganho. Você sempre perde. Poderia haver coisa mais justa do que
isso?". Quem adota a segunda maneira de ganhar considera que só há bom negócio
quando ambas as partes ganham. Faz uma pequena alteração no lema de Ashleigh Brilliant,
mas que provoca uma alteração radical no seu sentido:
"Eu sempre ganho. Você sempre ganha. Poderia haver coisa mais justa do que
isso?". Esta é a negociação eficaz, ou seja, a negociação ganha/ganha. E, nos
dias de hoje, com a maior interdependência entre pessoas, empresas e instituições, a
busca de parcerias, a terceirização e outras formas conjuntas de se obter qualidade e
produtividade, a negociação eficaz é, não somente "uma boa idéia", mas
sobretudo uma necessidade.
O que é o
ganha/ganha ?
Portanto, é preciso que compreendamos algumas coisas sobre o ganha/ganha, a fim de
evitarmos alguns desvios que são cometidos com muita assiduidade.
Inicialmente, devemos ter em conta que o ganha/ganha ocorre dentro das condições reais e
possíveis, e não dentro de condições ideais e inexistentes. Assim, ganha/ganha pode
ser obter o menor prejuízo possível, em situações que são profundamente adversas.
Deve-se sempre buscar o melhor, mas o melhor exeqüível.
Igualmente, deve-se ter presente que o bom negociador tem expectativa, normas e padrões
de desempenho elevados e, na pior das hipóteses, não faz acordos de que venha a se
arrepender. Assim, não resta a menor dúvida de que para isto é necessário muita
competência. E, um dos riscos em relação ao ganha/ganha é a sua compreensão ingênua,
de que se deve ser "bonzinho". Em negociação, ingenuidade significa
incompetência.
Existem alguns princípios que devem ser seguidos pelos negociadores eficazes, na busca do ganha/ganha. Um dos mais importantes é o de que "o problema do outro não é só problema do outro". Assim, os negociadores agem como se fossem solucionadores de problemas comuns, sendo a palavra problema entendida na sua forma mais ampla, compreendendo desde conflitos e antagonismos, até ganhos a serem auferidos conjuntamente. Desta forma, a expressão "cada um por si", não tem espaço e, não faz o menor sentido.
O fato é que o
negociador eficaz é, acima de tudo, um negociador competente e, entre as expressões
desta competência, está a capacidade de atuar com desenvoltura frente aos negociadores
ganha/perde. Para tanto, é preciso, entre outras coisas, conhecer como agem os
negociadores ganha/perde. Se você não puder identificar e se sair bem face a um
negociador ganha/perde, você, com toda a certeza, se encontrará em apuros em muitas
oportunidades. Surge, portanto uma questão de capital importância. Você sabe como
identificar um negociador ganha/perde? Bem, um negociador ganha/perde pode ser
identificado por que se utiliza e tem um vasto repertório daquilo que designamos por
táticas sujas. Existem duas categorias de táticas sujas que são as falcatruas e as
fragilizações do estado mental. As falcatruas se constituem em várias formas de
mentiras, dados falsos e informações distorcidas, sendo que, não resta a menor dúvida,
uma forma extremamente poderosa de mentira é a baseada em dados numéricos e
estatísticas. Segundo Benjamin Disraeli, primeiro-ministro britânico no
tempo da rainha Vitória, há três espécies de mentiras: mentiras, mentiras descaradas e
estatísticas. Existe até um livro a este respeito, escrito por Darrell Huff, com o
sugestivo título: "Como mentir com estatísticas". As táticas de
fragilização do estado mental objetivam abalar o ego do outro negociador, minar a sua
confiança, causar-lhe estresse ou provocar expectativas absolutamente irrealistas.
Existem muitas delas, tais como, agredir, debochar e provocar sentimentos de culpa. Todas
estas táticas são táticas construídas de tal modo que só um lado acaba fazendo
concessões reais. O negociador ganha/perde, algumas vezes segue a 1ª Lei de Roger que é
não pecar contra o 11º mandamento. Isto é, não ser pego. Assim, age mais na base do
lobo com pele de cordeiro. Outras vezes, quando acredita que o outro lado não tenha poder
de reação coloca as unhas de fora, fazendo ameaças e coisas no gênero
Modelo de
negociação
Portanto, para que possamos chegar ao ganha/ganha é preciso que tenhamos uma compreensão
de todos os fatores e aspectos necessários para o êxito de uma negociação. E isto é
dado pelo MIN - Modelo Integrado de Negociação. Existem 5 pontos a serem considerados.
1- O próprio
negociador com suas atitudes, crenças, valores, conhecimentos e habilidades.
Para verificar como você anda com relação a este ponto procure responder às seguintes
perguntas: Você sabe lutar pelo desejável de maneira realista sabendo diferenciar aquilo
que, de fato, é importante em cada situação? Tem crenças positivas e um grande desejo
de obter sucesso e de realizar? Tem conhecimento dos fatores necessários para o êxito em
uma negociação? Procura desenvolver suas habilidades, quase que de modo semelhante a um
atleta que esta sempre treinando para, não apenas manter sua forma, mas também, para se
aperfeiçoar? Tem sensibilidade para perceber prontamente que os procedimentos que está
adotando não estão adequados? Tem flexibilidade para a encontrar outros caminhos quando
o caminho que você está seguindo não está conduzindo aos resultados que você deseja?
2 - Processo de
negociação.
Quer as pessoas queiram ou não, toda negociação é um processo. Importa em aspectos
tais como etapas, estratégias, táticas, superação de impasses e a forma de se efetuar
concessões. Ter a consciência de que negociação é um processo é fundamental. Existem
três etapas deste processo que normalmente se constituem em pontos fracos de muitos
negociadores, que são a preparação, ou seja, o dever de casa, a exploração, que é a
coleta de informações, para que se possa fazer uma apresentação de acordo com os
interesses, necessidades e desejos do outro lado e o controle e avaliação, que é o que
se sucede após o acordo. Na verdade, é aqui que poderemos saber o que vai ser
efetivamente implementado e se o se o acordo foi bem ou mal formulado. De nada adianta um
acordo que, quando foi assinado se constituía num verdadeiro ganha/ganha, mas que na sua
implementação, por má fé ou incompetência, acaba se transformando num ganha/perde ou,
mesmo, num autêntico perde/perde.
3 - O conhecimento do
assunto, objeto da negociação.
Este ponto é de extrema importância, pois negociação é o processo de alcançar
objetivos através de um acordo e quem não conhece o assunto não sabe diferenciar um bom
de um mau objetivo. Se comporta como alguém que toma um taxi numa cidade desconhecida. O
motorista faz logo duas ou três perguntas e de acordo com as respostas, uma corrida que
pode ser feita em 10 ou 15 minutos acaba demorando uma hora ou mais. Conhecer o assunto é
básico para que se possam estabelecer objetivos, definir a margem de negociação,
construir alternativas de ganho comum e estabelecer critérios objetivos que possam ser
utilizados na definição do acordo. Pode envolver, entre outros, aspectos técnicos,
econômicos, financeiros, sociais, administrativos, jurídicos, contabilidade de custos e
matemática financeira. E é preciso ter muito cuidado com estes assuntos. Vejamos, por
exemplo, a matemática financeira, onde os equívocos podem ser enormes. Quem se dá ao
trabalho de verificar as formas de pagamento anunciadas em jornais fica estarrecido. Os
juros, muitas vezes, ultrapassam a casa dos 70%, camuflados, em algumas oportunidades, sob
a forma de prestações decrescentes.
4 - Os cenários da
negociação.
Toda negociação tem três cenários. O primeiro diz respeito ao local e às pessoas que
estão diretamente envolvidas na negociação, ou seja, àqueles que estão buscando
chegar a um acordo. É sempre necessário saber a autoridade da pessoa com quem se está
negociando. Caso não se tenha esta preocupação pode-se perder muito tempo negociando
com a pessoa errada ou se fazer concessões sem não obter nada em troca. O segundo
cenário diz respeito ao que está por traz destes negociadores, tal como pessoas que
consideram importantes ou tem como modelo, e pessoas que lhes dão os parâmetros a que
devem se ater e definem seus limites de autoridade. A estas pessoas chamamos de eleitorado
dos negociadores e saber quem é o eleitorado do outro negociador pode ser uma
informação de grande valia. Inclui-se aqui, também, todo o apoio logístico necessário
para que se efetue uma boa negociação, tal como uma sólida base de informações, de
análise e de assessoria. Pode-se pensar em alguma coisa semelhante ao que acontece nas
partidas de xadrez. Quando uma partida é suspensa, cada lado tem um conjunto de
assessores que vai analisar o que ocorreu, prever quais os possíveis desdobramentos e
oferecer sugestões. O terceiro cenário é o macro ambiente econômico, político, social
e cultural. Nestes tempos de globalização, tem um peso bastante acentuado. Várias
negociações já foram perdidas em função do desconhecimento da cultura de outro povos.
5 - Relacionamento
Interpessoal.
É uma outra área básica a ser considerada. A habilidade de relacionamento começa, na
realidade, com a capacidade de separar as pessoas dos problemas que ocorrem na
negociação. Isto quer dizer não transformar as dificuldades inerentes ao processo de
negociação em algo pessoal contra a figura do outro negociador. Ou seja, uma batalha de
vontades, um conflito de egos, em que o mais importante passa a ser ver as suas opiniões
e posições prevalecerem, não importando a qualidade do acordo nem a contribuição
efetiva que o outro lado pode oferecer no sentido de um desfecho que atenda aos interesses
de ambas as partes. Esta área também diz respeito a capacidade de identificar estilos
comportamentais dos negociadores, de negociar de forma apropriada ao estilo do outro e de
saber trabalhar com os impasses e as frustrações que, eventualmente, possam ocorrer.
Conclusão
A negociação eficaz depende, portanto, de muita competência. Deve ser sempre lembrado
que esta competência diz respeito não somente a aspectos da realidade externa dos
negociadores, mas também e, sobretudo, de suas realidades internas, tal como seus
processos de percepção, expectativas, emoções, temores, atitudes, crenças, valores e
necessidades. Um negociador eficaz tem sempre presente que as pessoas se comportam de
acordo com a realidade percebida, isto é com seus mapas mentais que são suas
representações da realidade externa, ou seja, do território e, consequentemente, dos
cenários da negociação. Portanto, negociar bem é, também, um processo de descoberta
da experiência subjetiva própria e do outro negociador, e de seu território interno,
pois este é o verdadeiro local em que a negociação acontece.
JOSÉ AUGUSTO
WANDERLEY
CONSULTOR EM LIDERANÇA E NEGOCIAÇÃO
E AUTOR DO LIVRO NEGOCIAÇÃO TOTAL: ENCONTRANDO SOLUÇÕES, VENCENDO RESISTÊNCIAS,
OBTENDO RESULTADOS
www.jawanderley.pro.br